EU SOU MENINO
junho 5, 2007
Não tinha sido uma tarde legal!
Havia brigado com a namorada. Sabia que era coisa a ser resolvida, mas estava precisando espairecer, limpar a cabeça, que não parava de pensar na briga com a mulher que amava. Fazer o quê, tentava simplificar, são coisas que acontecem.
“Vou dar uma saída, esfriar a cabeça e depois penso melhor”. Afinal estavam tratando do casamento quando a briga começou, “nem sei bem porque”
Tomou um bom banho, fez a barba, vestiu uma roupa mais esportiva, saiu, sem qualquer plano pré-estabelecido.”No caminho, eu resolvo”, pensou.
Desceu a Marques de São Vicente, morava na Gávea, carrinho novo, canal do Leblon, na dúvida nem pestanejou, subiu a Niemeyer, sem destino, “easy rider”.
Começou a sentir-se melhor, menos culpado pela briga que tivera. Gostava, muito, da namorada. Nada do que pretendia fazer, buscava esquecê-la. Apaziguar a cabeça, isso sim!
Passou pelo Sheraton seguiu em frente, fim de tarde linda, começava a ficar mais tranqüilo. Subida do Vidigal, a direita, seguiu em frente pela Niemeyer, ligou o rádio, musiquinha gostosa, procurava pensar aonde iria, onde tentaria colocar sua cabeça no lugar. Na verdade, começava a pensar como resolver a discórdia com a namorada, tinha que ser no dia seguinte. Pra isso, limpar a cabeça, raciocinar legal, rapidinho, obrigatório.
Mas, aonde ir, tornou a pensar. Já estava na altura do King´s Motel, quando resolveu voltar.
Sheratton!É isso! Tem aquela casinha onde funciona uma cachaçaria, em que ele já estivera algumas vezes com a sua namorada. “É pra lá que eu vou!”
Freou, observou o trânsito, arrancou no sentido que viera, se mandou para o Sheraton. Desceu aquela rampa chata, circular, que não acaba mais, estacionou e foi em busca da tal cachaçaria.
Achou, procurou um lugar para ficar, o atendente se lembrava dele, perguntou pela namorada, deu uma resposta qualquer. Casa quase cheia, mesinha num canto discreto, afinal estava lá pra ver se refrescava a cuca, outras intenções, nem passava pela cabeça. Cardápio na mão, mais para constar pois já sabia o que pedir, sempre a mesma coisa, “bolinhos de aipim com carne seca, caipirinha de cachaça sem açúcar, mas traz o adoçante que eu tempero aqui mesmo”, relaxou. Nada passava pela sua cabeça. Branco total!
Minutos de total relax enquanto aguardava o pedido, vista para o mar, tranqüilo e limpo, sol se pondo, ainda dava pra ver alguns reflexos do sol que se deita lá pras bandas do Costa Brava, ficou certo de que sua escolha fora a melhor. Sairia de lá, certamente, com a idéia recomposta de se acertar com a mulher amada. Chegou a pensar em telefonar pra ela, mas sacou que seria prematuro. Se ele achava que superara o “tranco”, sabe-se lá a cabeça dela.
Talvez estivesse precisando do mesmo tempo que ele. “Tempo pra ela, também,” pensou.
Um olhar geral pelo ambiente, mera formalidade, tem a atenção despertada para uma bela jovem, sentada em uma mesa quase oposta a sua. Sozinha, possivelmente esperando alguém, “uma gata dessas não pode estar sem companhia”. Desencanou, relaxou, chegou seu pedido, provou a caipirinha, maravilhosa, provou o bolinho, como sempre de primeira, “vou ficar na minha, pianinho, pianinho”. Mas, cabeça de homem, mesmo que seja para conferir se chegara o cara da menina, deu nova espiada para a mesa da linda morena. E lá estava ela, sozinha. Incrível, já se passara meia hora e a “gata” continuava sozinha. Seria “michê”? Chamou o garçon, perguntou se ele conhecia a moça, se sabia quem era. Nada, segundo o garçon, era a primeira vez que a via por ali. Olhou de novo e viu que a linda morena estava olhando para ele. Coincidência, pensou. Mas, novamente, seus olhares se cruzaram. “Seria o destino”, pensou, já meio pecaminosamente. Afinal, de uma forma ou de outra, estava meio “dispensado”, brigara com a namorada, uma oferta daquelas, um “mole” daqueles, de uma coisa linda como aquela…não dava pra desprezar.
“Garçon”, chamou. Redigirá um bilhetinho, cuidadoso e educado, convidando a moça para compartilhar a mesa com ele. Dividiriam as solidões, papo besta, vá lá, mas foi o que ocorreu. “Vai lá naquela mesa, discretamente, e entrega esse “torpedo” pra moça”.
Garçon amigo, ainda o olhou com aquele olhar cúmplice, afinal conhecia sua namorada oficial, e foi à mesa da moça. Ele ficou só olhando, talvez imaginando que ele não aceitasse seu convite. Momentos de expectativa, “quem não arrisca,não petisca”, seguido daquele ar de triunfo quando a beleza levantou-se e veio em direção a ele, à sua mesa. A moça, pôde constatar mais de perto, era de fato um monumento. Alta, mais para magra, mas com tudo em cima, bem vestida, voz aveludada e quente, “me dei bem”, pensou o conquistador.
Levantou-se, educado e gentil, puxou a cadeira pra ela sentar, tirando essa obrigação do garçon, aquele boa-noite – a tarde já se fora e a noite dava o ar da sua graça – hora de começar a arte da conquista, em que ele se considerava um craque. De fato, a estória dos seus romances, comprovava.
Conversaram muito, ela tinha uma educação mais apurada do que ele imaginara, estudava Comunicação, planos para futura viagem à Europa, papo fluindo, mãos se tocando, corpos se aproximado, lábios se aproximando, se roçando, tudo muito cuidadosamente, como ele imaginava numa conquista educada. Haviam jantado, tempo passara, a paixão era evidente, de parte a parte, aquilo não poderia ficar só nisso. King´s Motel, próximo e bacana. Fez o convite, prontamente aceito. Conta paga, aquela corrida para o carro, alguns amassos pelo corredor, mãos procurando os contatos mais íntimos, entram no carro, nada em volta, “que tal umas investidas mais afoitas, mais, digamos, invasivas”, pensou de novo o conquistador.
Ela, totalmente envolvida, vai permitindo, seios, coxas, nádegas, quando, ao chegar próximo à zona do agrião, ao bem bom da relação, resolve pedir que ele parasse. “Quero te dizer uma coisa, amor”, consegue ela falar me meio aquela loucura em que estavam envolvidos. Ele, nessa hora já completamente enlouquecido, quase desespera. Mas, lembra-se, “estamos no estacionamento, eu acho que perdi a cabeça, mesmo” . Para, resfolegante, e ouve o que tinha a dizer a bela morena.
“Eu sou menino”, fala clara e limpidamente, para total surpresa do empolgado galã. Desfaz-se o encanto, suportado pelo conquistador em função de sua educação e finesse. Ela, ele, o “menino”, até meio encabulado, afinal tinha uma sólida educação, também, pede desculpas, “mas, se a gente ia ter alguma coisa mais adiantada, eu achei que você devia saber”, arremata. Desconversam, com educação, embora a decepção de parte-a-parte, ele pergunta a ela/ele onde gostaria de ficar, ele a levaria em casa. Dito e feito, deixada a “dama” em casa, ele volta pra seu apartamento, entende que ”isso são coisas da vida, acontece”, vai dormir.
Dia seguinte me telefonou, dizendo que quase capitulou, quase consumou o programa, reiterou a beleza da moça/moço. “Mas, claro, não ia dar” tipo se autoconvencendo.
Três meses depois casou com a namorada. Fui um dos padrinhos do casamento.
Da moça/moço, nunca mais teve notícias. Por via das dúvidas, nunca mais voltou na tal cachaçaria.
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